terça-feira, 4 de março de 2014

Mais que um parto

Mais que um parto, um coração partido ou um talho no rosto; aquela dor ambígua que perseguiu os meus olhos na manhã em que a neblina era mais forte que os raios solares escondidos pelas nuvens
Foi mais que um parto o sentimento em que corroeu os meus ossos e disparou o meu coração em meio à risos e deboches. 
Nem a dor de um eterno amor poderia se comparar a tão escuro momento: angústia, medo, desespero, morte; nem o tempo curará as queimaduras que um dia o domingo causara no meu corpo.

O destino, no entanto, reserva-me a angústia e a vida vagabunda que levo desde o princípio.
E terei assim como de pão, fome da morte, do sangue, da orgia em que não acaba nesse leito
Não me escorrem lágrimas, já não me tremem minhas pernas, não choro aos teus olhos, (onde a podridão se esconde), eu não rendo-me ao amor.

As minhas veias entupidas de contradição e versos que não fluem, histórias que esperam para serem contadas e não saem dos meus lábios, não morrem do tempo; o meu mito acabou-se.
Os meus átrios e ventrículos funcionam só de temor, de vida acabada e de um ódio que não muito longe se encontra.
Foi mais que um parto.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Desfecho

Como uma cidade lírica macia de seda os teus seios, por todo o teu corpo, como um estado, perante a primavera que consagra-se ferida
Vem a noite, lentamente cruel envolvendo agonia, e possuo-te nua e fugidia.
O outono no entanto não chega, o verão estende-se em um deserto coberto de neve, mergulhado nos teus olhos lívidos em que outrora talvez fosse da fome.

Nu e sós ouçamos os risos dos homens, tendem a vagar pela neblina e pelas manhãs translúcidas cultivadas aqui, eu não temo a morte, e não rendo-me a nada
E naquele céu obscuro nasce a desgraça, onde já foi morta e como uma ressurreição qualquer renasce: arde-me o peito.

A primavera continua, o verão rachando-me os lábios, o outono se tarda a vir; teus olhos choram, a tua boca arde e ferve assim como um vulcão em erupção às lastimáveis lágrimas com que derramas ardil mente.
Não me basta a tua fome, a tua desgraça, a tua morte: não me basta mais nada.
Talvez, por ironia ou desfecho, tu não demore tanto quanto o outono,
"Eu não quero mais o teu sexo.
Eu vou sair daqui e tardarei a voltar."

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O oculto

Tanto fiz oculta uma dor sem dono,
que convenci-me da vinda da morte e dos olhos oblíquos em que tu te reguardas diante das minhas rugas,
E quando pareces despertar, és a primavera ferida; a estação silenciosa e dolorosa; não te enganas, tu és as fezes e a podridão que este mundo se encontra.

Vives como vive uma pedra; choras como chora um ser morto; sente como um animal. E não te poupo disso, falta-te virar do avesso.
Pois há sonhos que te vestem, utopias que a tua hipocrisia segue: tu és a mentira e a angústia, a fome e a desgraça. E nem teu fingimento mudará as circunstâncias, nem a morte te levará embora, continuará a vagar pelas noites e visitará o luar, matando-me novamente aos poucos neste leito.

Os meus soluços tu ignoras e diante dos meus serviços e gemidos, nada tu notas
E este pranto que nos acompanha dia e noite, noite e dia, terá os mesmos olhos que tu,
Negros como as noites de insônia e melancolia, terás a tua pele pálida, os teus cabelos louros a brilhar diante ao sol, e descrença da vida; será o surrealismo?

De ver-te no espelho sou coitada, vítima de vazio estremo,
A tua beleza, não iguala-se a tua maldade, ao teu pouco valor; repetirei versos e cantarei poemas para te dizer que a tua morte  não morrerá, e não desejo a tua vida.
Nesta confusão, apenas desejo minha ida, tua passeada por entre veredas e estradas longas, teu cansaço, teu suor..
Tu chegarás como um primeiro beijo, lentamente fecharei os olhos
E descerei muros ao fim do abismo.


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Eu te busco

Não sei te explicar como procuro a tua voz
E a tua atenção, que não floresce, mesmo no cair da noite, e de frente ao cais:
Não sei como dizer quando os teus olhos me olham, lentamente num brilho precioso;
Assim, estremecendo-me como um pensamento recente qualquer. Quando o campo iniciado, o centeio ondula ao sentir um tempo distante,(talvez passado, ou quem sabe o futuro..) e na terra crescida os homens já habitam - eu não sei te negar que até minhas ideias te insistem.

E quando a ilusão faz acreditar que os galhos da melancolia secam, e os astros lá do espaço me vigiam,
O meu coração, não passa de um fruto inventado, e nem sei de qual semente, pois
Tu arrebataste as veredas da minha solidão
E a minha casa, o meu rosto, os meus seios e a minha vida ardem perante estas noites, de pura insônia e amor. O egocentrismo acompanha, dentre as pedras que nos cercam do teu tão jovem silêncio, como crianças que imploram a uma canção de ninar após os sonhos horripilantes, no meio do tempo - não sei se posso te dizer, que a pureza dentro de mim, te procura.

Desde a mais recente primavera os meus lábios cantam o que os meus braços devem lhe contar; e aprendo,o leve abstrato correr do espaço -  minto quando digo que talvez mandarei flores e cartas cheias de razão, mas quando a sombra morrer dos meus lábios, faltará a mim um girassol, um lírio, um beijo ou um par de tapas (qualquer coisa extraordinária).
Porque não sei como declarar que dentro de mim há o sol, a chuva, as águas e o oceano inteirinho; a lua, a imensidão e as galáxias; os bosques, o verde e o alimento (além de todo o amor do mundo) que te insistem, procuram e te buscam.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Pranto longo

Quando digo-te, amado, que nem só este amor é a vida de meus dias,
Com toda mágoa e angústia ainda fortalecida em meu peito,
Deves acreditar.

Não deves ter dúvida de que o meu pranto não faz-se mais da falta dos teus beijos,
Mas da crueldade e falta deste manto que, de vez em quando se esquece
De me corroer por inteiro.

Quando a minha vida afirma-te que meu coração bate por um outro alguém, ou talvez outro sentimento,
E não mais pelos espinhos dessa ardil paixão,  dessa vereda que um dia já andei
Tu tens que compreender.

Foram-se as estradas que já cruzei, jazem as utopias que um dia a pureza tivera conquistado em mim
Não há sonhos no meu ser; reza a lenda que desaprendi a amar
Meu bem, já não é uma loucura a tua rejeição.

Os meus olhos choram, a minha alma grita: não há vida sem esse vício, esse sonho e pesadelo, esse desejo.
Por isso é que de vez em quando nego os meus instintos e insisto em te dizer que, não sei de certeza,
Mas já não gozo do teu gozo.

E diante destes versos, pouco sei se é verdade ou  mentira, o que a minha boca cospe,
Minha mente pensa e minhas mãos traçam
Mas enquanto este teu fim se prolonga em minha vida e minha tristeza aumenta: da poesia faz-se o meu riso e o meu sustento.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Morta de amor

Tudo de amor que existia em mim se foi
Todas as palavras cuja um dia pensei foram ditas
Piscou-se o olho e o sentimento tornou-se infinito
E de muito escravizado o meu peito.

De pródiga de amor, sou coitada
De fácil de amar virei em "nada".
Cada voto que fiz ergue-se em choro
Contra o meu próprio riso de fada.

Tivera dado amor mais do que caberia
Nessa vida de angústia e abismo
E faço essência desse engano
Que rompe a minha estrada, inicia o meu pranto.

E se resistir é o caminho, não minto que sou fraca
Apodreceu esse sentimento, essa pureza, esse encanto
Antes seria não sentir, do que isso receber
Para uma vida sem dano e amor viver.


domingo, 29 de dezembro de 2013

Rabiscar-se

Mais uma noite qualquer de primavera flui
Por este mundo, afogado no mar da amargura
De surras e queimaduras
Tijolos e tapas na cara.

Mas a noite não é nada
Nada além da minha tristeza e da falta de meus versos
Choro, choro, só penso
Penso, penso.. e nada escrevo.

É ardiloso o nascimento
Das palavras cuja ontem e hoje nasceram, e nascem, é claro
E dentro daquele mesmo instante morreram
Num breve segundo e se foram.

Eis um ciclo ao meu redor: será este da vida? Da minha!
Sim senhor, é meu este ciclo, é minha esta vida
Palavras e versos de hoje,
De ontem, amanhã e depois (tanto faz).

Pois, a verdade é que,
Não preciso da pureza e nem da vida,
Eu preciso beber do mesmo cálice e saciar minha sede da mesma fonte que o poeta,
Para enfim a meu pranto morrer,
E a angústia de amanhã, assim como os versos, nascer.